HAGENS
E no caminho tem uma pedra.
Voltar para Artigos
AIMarketing

E no caminho tem uma pedra.

Léo del Castillo

Quanto mais ficamos de queixo caído com a evolução da IA, mais precisamos fazer a lição de casa e cuidar do que é básico.

Nos últimos meses, minha vida tem circulado em torno da Inteligência Artificial. Me encarreguei, como projeto pessoal, de tentar entender o que é ruído e o que é informação em tudo o que tem sido discutido sobre o assunto - justamente para aplicar a tecnologia da forma mais eficiente, escalável e efetiva na agência da qual sou sócio e em benefício dos nossos clientes. Acabei de voltar da NRF 2025 e, como já era esperado, o grande assunto por lá foi IA. Porém, a divisão das torcidas organizadas me surpreendeu positivamente. De um lado, o time dos "otimistas", achando que o jogo está ganho e de goleada. Do outro, os "realistas pragmáticos", mostrando que não adianta treinar e sonhar alto se, na hora do jogo, o time não consegue fazer gol. Nenhuma teoria (ou MVP) vira realidade e a vitória acaba por ficar nos rabiscos da lousa, no slide do PPT ou nas fórmulas do Excel. Ouvi muitas vozes sensatas (com as quais concordo plenamente) fazendo vários alertas sobre os famosos "fundamentos do varejo". Acompanhar o tsunami de notícias e ir a eventos nos quais a IA é a estrela (como a NRF) é apenas a ponta de um imenso iceberg. E a analogia com o iceberg vai muito bem a calhar. Um bloco de gelo do tamanho do Brasil, se derretesse, mudaria o nível do mar, alteraria a temperatura marinha, causaria inundações apocalípticas e deixaria nosso mundo irreconhecível. A Inteligência Artificial é esse iceberg que acabou de se desgrudar das calotas polares e vai transformar tudo. Um glaciologista é um cientista que estuda icebergs – então resolvi ser um "IAlogista" para ir a fundo nesse universo, escapar da conversa vendedora e pouco consistente de 9 em cada 10 fornecedores de soluções e buscar processos, metodologias e soluções que realmente fizessem a diferença. Essa é uma pesquisa em movimento contínuo. A cada dia surge algo novo – e no dia em que sentei para escrever este artigo, o DeepSeek mostrou que nesse iceberg nada é estável. A única certeza é a surpresa. Mas esse não é um fenômeno que nasceu com a IA. A velocidade com que diversas tecnologias surgiram, cresceram, absorveram as atenções e investimentos e praticamente "tiraram o ar" de qualquer outro tema é algo assustador e improdutivo. Sim, improdutivo, pois, enquanto gastamos um tempo absurdo tentando nos atualizar sobre cada novidade de cada fornecedor, perdemos de vista o essencial dos nossos negócios. Isso não vem de hoje: a pandemia já tem quase 5 anos, mas parece que foi ontem que fomos forçados a nos reinventar continuamente. Ficamos todos loucos e ansiosos pelo novo mundo que surgiria pós-pandemia e esquecemos que toda grande promessa é também uma meia verdade. A pandemia foi embora e o novo mundo veio – mas não como esperávamos. A ideia de uma evolução do ser humano, que respeitaria mais o meio ambiente e o próximo, tem sido diariamente confrontada com a crise climática e o avanço de discursos e ações extremistas. Por outro lado, o e-commerce ganhou força, a transformação digital avançou enormemente, e no sentido tecnológico nosso mundo realmente é outro. Nesse cenário, a IA é a nova onda, o novo negócio que promete a corrida do ouro, transformando todo ser humano em um poderoso Super-Homem. Mas o que está muito claro é que alcançar todo o potencial da IA (ou de qualquer tecnologia, para sermos bem amplos) é para poucos. Só vai passar na prova da IA quem tiver feito a lição de casa – e como a barra da prova da IA é altíssima, é preciso fazer uma imensa lição de casa para conseguir passar de ano. Nos últimos seis meses, não conversei com ninguém cuja empresa não estivesse no mínimo olhando algum projeto de uso de IA em alguma área do negócio – mas pouquíssimas pessoas estavam conscientes do esforço necessário para fazer o potencial da IA se converter em realidade. Entender esse esforço é uma daquelas experiências de transformação de vida que nos deixam humildes para sempre – algo como tentar praticar qualquer esporte contra um profissional. A barra é tão elevada que muitos nem conseguem ver onde ela está – mas todo mundo acha que consegue chutar uma bola. Lamento, mas poucos conseguem. Por isso, para 99% de nós, 2025 não tem que ser o ano da IA – tem que ser o ano do back to basics. Antes de pensar em Inteligência Artificial, LLM, GPUs e afins, coloque a arquitetura de tecnologia do negócio em ordem, investindo em transferência de dados e alta performance. Elimine os silos de informação no negócio. Desconstrua os feudos que encastelam gestores de áreas em seus pequenos poderes. Construir uma arquitetura que funcione na escala necessária para a IA acontecer não é fácil, pois envolve investimento, muita sistematização de processos, modularização de sistemas e o que de mais avançado existe hoje em arquitetura de software e nuvem. E tudo isso só poderá começar depois que a cultura da empresa estiver preparada, uma vez que o sistema imunológico corporativo mata qualquer ameaça ao status quo. Por isso, antes de sair criando sua estratégia de IA, dê alguns passos para trás e reestruture as pessoas, a cultura, a organização da empresa e, então, as tecnologias de base do negócio para conseguir aproveitar o que o futuro tem a nos proporcionar. Essa pode ser a sua última chance para terminar a lição de casa da "transformação digital."
Léo del Castillo

Sobre o autor

Léo del Castillo

"Rápido é o que não volta pra trás."

Essa frase ficou no vidro da agência por vários e vários anos. Criar a cultura do pensamento "lean digital" e fazer isso chegar até o chão de fábrica é, ainda hoje, um enorme desafio para as empresas que começam a fazer esse exercício.

LinkedIn